Quase todos os dias elas (ou eles) se postam na estrada à espera de algum corpo carente que esteja disposto a experimentar um contato “diferente”.
Cabeça e hormônios de mulher e corpo de homem, apesar dos implantes, são muitas as que sobrevivem à custa do aluguel do próprio corpo. Na noite de terça-feira da semana passada havia cerca de 35 travestis que estavam ao longo da estrada SP-66, entre Itaim Paulista e Mogi das Cruzes. Isto significa que pelo menos 50 delas poderiam estar fazendo ponto na estrada, já que parte poderia estar fazendo “programas” com seus clientes em algum lugar oculto das cidades.
E se alguém pensa que o mercado do sexo caiu por causa do rumoroso “golpe” de extorsão aplicado no jogador de futebol Ronaldo, no Rio de Janeiro, pode estar enganado. Embora algumas delas afirmem que nada mudou, outras ainda afirmam que, após o escândalo, aumentou a procura de homens pela “terceira via”.
Ronaldo, como foi amplamente noticiado, se envolveu com três travestis no Rio de Janeiro e disse que negou pagar R$ 50 mil a uma tal de Andréia, ou André, que teria exigido esta quantia para não tornar público aquele relacionamento.
Após todos serem ouvidos, delegado e promotor decidiram indiciar André Luis Ribeiro Albertino, a “Andréia Albertini”, por tentativa de extorsão. Na delegacia ele negou o que dissera aos jornais na noite do escândalo e Ronaldo, após pedido de desculpas públicas em uma entrevista na tevê, ainda conseguiu trazer para seu lado a torcida do flamengo.
Por outro lado, a denúncia do jogador trouxe à tona vários depoimentos em jornais e televisão, mostrando alguns tipos de golpes aplicados por alguns travestis contra clientes. Cientes que a divulgação do fato pode gerar um vergonhoso escândalo, muitas delas intimidam os incautos fregueses eventuais e exigem pagamentos extras, com ameaça de escândalo.
Geralmente postadas ao longo de estradas, à espera de caminhoneiros sedentos de sexo, algumas evitam ser fotografadas. Outras, porém, até posam para a foto, cientes que poderão sair no jornal.
Ato obsceno
Com peças de roupas inadequadas para o clima frio, procuram deixar a mostra os atributos mais evidentes e procurados pelos homens. Há até aquelas que usam biquínis e deixam o seio à mostra – hábito que deixa muitas famílias viajantes indignadas e inconformadas com a falta de punição.
A indignação, porém, não passa de um comentário informal ou a um telefonema ao jornal denunciando o fato. Já houve quem perguntasse: “a polícia não vê isto? É um absurdo”.
O delegado titular de Poá, Renato de Almeida Barros, informou que não há registros de ocorrências envolvendo travestis em Poá. Quanto ao fato de haver exposição do corpo seminu, o delegado diz que quando “elas vêem a viatura, se cobrem ou se escondem” e, assim, se não há denúncia hão há crime.
Entre terça e quarta feira, o jornal apurou que tanto em Poá como nas delegacias de Suzano, Itaquá e Ferraz, nenhuma ocorrência foi registrada, apesar do intenso movimento.
Em Poá, o delegado Rubens José Ângelo, foi a autoridade de plantão da delegacia, na madrugada em que foi feita a reportagem. Ele informou a ausência de ocorrências e explicou que o ato da prostituição não é tipificado como crime, porém a pessoa que explora a prostituição (rufião, cafetão) esta sim poderá ser punida.
E quanto à exposição de partes nuas em público, informou que o autor poderá ser indiciado no artigo 233 do código penal, por Ato Obceno. O crime é considerado de pequeno potencial e, se condenado, o réu poderá ficar preso de seis meses a um ano.
A fala das travestis a respeito disto é variada. Algumas dizem que têm vida dupla e outras que vivem exclusivamente de sexo, pois são discriminadas no mercado de trabalho e não resta outra coisa a fazer.
Com cédula de identidade de homem e nome fantasia de mulher, o blefe é coisa comum entre estas pessoas, que transformam o cotidiano num grande arco íris: o João Antonio passa a ser Yasmim Flower. E quem achar que são abomináveis pecadoras, que atire a primeira pedra.