Exemplo de criatividade para o mundo
Este editorial hoje retrata um feito exemplar que nos faz refletir sobre as soluções aparentemente impossíveis.
O jovem William Kamkwamba, de 22 anos, estudante africano, com sua perseverança, criatividade e vontade, conseguiu um feito histórico: levar energia elétrica para sua vila a partir da energia eólica, através de uma verdadeira gambiarra.
Sucata, uma bicicleta enferrujada, dois livros amarelados de física elementar, peças de um motor achadas em um ferro velho e, acima de tudo, muito esforço e criatividade fizeram com que a vida de William Kamkwamba, que passava fome na parte rural do Malauí, virasse do avesso.
Veja só que história. Aos 14 anos, o menino largara a escola – sem dinheiro para os US$ 80 anuais exigidos por aluno. Falido, faminto e sem perspectivas, decidiu parar de imaginar que as coisas se resolveriam com um milagre: era melhor se virar com que tinha, e bem rápido.
Em abundância, havia sol, vento e sucata. “E se eu tentasse fazer algo com isso?”, pensava, folheando os livros de ciência de uma minúscula biblioteca improvisada pelo governo norte-americano. Mesmo sem saber inglês, a língua em que as obras eram escritas, fascinava-se com as imagens que mostravam geradores de energia, inexistentes na sua vila e em grande parte do Malauí, o 138º país do mundo em geração e consumo de eletricidade. Por lá, isso é luxo de 2% da população.
Quando topou com a capa do livro Using Energy, estampando um moinho de vento, que uma lâmpada acendeu em sua cabeça.
“Com aquilo, tudo melhoraria. Poderíamos bombear água, aumentar nossas colheitas. Acabaria com a nossa fome”, relembra, em entrevista ao Link. “Foi aí que decidi fazer um daqueles”.
Sem incentivo, instrução e “nem noção do que era a internet”, William confiava na intuição e nas noções básicas de física que recebeu no colégio.
Mas até ele se assustou quando as pás se mexeram e, ao juntar dois fios a uma lâmpada, fez-se a luz.
Com apenas 22 anos, Kamkwamba já palestrou no Fórum Social Mundial e no TED, o evento de tecnologia que recebe convidados como Bill Gates e Stephen Hawking (foi aplaudido de pé por lá).
Sua história de superação virou biografia: The Boy Who Harnessed the Wind (O Garoto que Domou o Vento) obra que ficou mais de um mês na lista de mais vendidos do New York Times e foi eleito um dos dez melhores de 2009 pela Amazon. Um documentário sobre ele já está agendado para 2011.
Atualmente cursa o último ano da African Leadership Academy, na África do Sul, destinada a formar futuros líderes do continente.
Lá seguirá na universidade e tentará angariar apoio para o seu projeto Moving Windmills, que ajuda vilarejos como o seu a se sustentarem apenas com meios renováveis.
Esta história foi reportada no Brasil pelo jornalista Rafael Cabral, do jornal o Estado de São Paulo.